Boatos

Meu grito poderia ter sido ouvido no primeiro andar, caso as paredes do luxuoso hotel não tivessem isolamento acústico. Malditos pseudojornalistas e suas notícias falsas! Não é como se eu nunca tivesse passado por isso antes, afinal a carreira de cantora está sujeita diariamente a esse tipo de fofoca, mas me irrita o fato de isso sempre prejudicar minha carreira, meu emocional, e agora, o meu relacionamento.

Olho para o notebook, irritada e querendo tacá-lo na parede, ao ler pela milésima vez a manchete de um jornalzinho online qualquer “Cantora pop, Lara Vasconcelos, é a pivô da separação do cantor sertanejo Miguel Macedo”. Na matéria ridícula ainda aparece uma suposta foto minha com o tal cantor, que nem tenho ideia de quem seja. Analiso a imagem e realmente dá para dizer que sou eu. Se analisar rapidamente, é possível confundir os cachos caindo nos ombros e o rosto de perfil. A fotografia escura e tirada por um amador só faz com que piore tudo.

Atualizo o site e outros milhares aparecem, espalhando a maldita fofoca mentirosa. Fecho o notebook com força e o empurro pela mesa de madeira. Por que comigo, Deus? Ao invés de pedra, acho que joguei merda na cruz! Apoio a testa na mesa e bato lentamente várias vezes querendo apagar este pesadelo da cabeça. Ainda tenho que pensar em como recuperarei meu namorado e conseguirei meus contratos cancelados de volta. A inútil da minha assessora sumiu do mapa e não atende meus telefonemas. Gasto uma fortuna com salário para não ter ajuda quando preciso.

Ouço a batida na porta e levanto arrastada, sentindo-me triste e derrotada. Ando até lá e abro para receber o almoço que pedi, quando sou surpreendida com um flash no meu rosto.

— Mas que merda… — digo, tampando os olhos. Não sei como ainda não fiquei cega devido a essas pessoas completamente sem noção de privacidade.

— Desculpa, Lara! Sou sua fã! — A garota arrasta o carrinho com a comida até o interior do quarto e, ainda com o celular na mão, me olha com aquela expressão extasiada que todo fã sempre estampa.

— Tudo bem… — Tento sorrir, mas deve ter saído uma bela de uma careta ao invés disso.

— Parabéns pelo namoro! Não ligue para as pessoas que estão te chamando de vagabunda… Vocês estarem felizes é o que importa — ela diz animada, e tira uma revista escondida na cintura. — Você pode assinar a capa para mim?

Aceno sem nem me dar o trabalho de responder, ou desmentir, o que ela disse. Como assim estão me chamando de vagabunda? A garota se aproxima de mim e me entrega uma caneta. Faço uma expressão de choque ao notar que não é minha imagem estampada na capa da revista. Leio o que está escrito em letras gigantes e coro ao notar a foto do tal sertanejo na capa. Com apenas um violão tampando as partes íntimas e um chapéu segurado com uma mão, como se ele fosse tirá-lo, o homem mostra seu belo sorriso e corpo. A matéria com o título de “Parece que os 22 centímetros não eram apenas boatos” me chama atenção, e eu quase engasgo com a minha própria saliva.

Observo o tal Miguel e, por um segundo, admiro a sua beleza. Ele tem um jeito meio rústico, com a barba preenchendo todo o rosto, a pele morena de sol e um sorrisinho, que se fosse em outro momento, me faria ter pensamentos bem sacanas. Isso por que não falei sobre o corpo perfeito quase nu. Queria por um minuto ser aquele violão para… O que estou pensando? Ele destruiu minha vida com a bagunça da vida dele!

A garota ainda me olha atenta examinando minhas reações e diz:

— Você é mesmo uma mulher de sorte! Ele é maravilhoso… e uma delícia. Com todo respeito! — Ela levanta as mãos e faz um sinal de que está sendo respeitosa. Palhaçada. — Posso te perguntar uma coisa pessoal?

Concordo com a cabeça enquanto assino a tal revista um tanto capciosa.

— Ele tem mesmo 22 centímetros de… você sabe. — Primeiro, olho para ela chocada sem acreditar que está mesmo me perguntando isso.

Meu celular toca em cima da cama e me livro de ter que comentar isso. Faço o sinal para ela, que entende o recado. A moça agradece pelo autógrafo e sai do quarto, fechando a porta em seguida. Reviro os olhos e vejo o nome da minha assessora na tela, suspirando aliviada atendo.

— Onde diabos você se meteu, Ana? Sabe as merdas que estão rolando por aí? — grito.

— Eu sei, Lara! Desculpa. Estou chegando aí em alguns minutos! — Ana responde, parecendo tranquila demais para o meu gosto. — Não surta. Você sabe como são essas fofocas, surgem e vão com a mesma velocidade.

— Espero, viu. Ou vou matar quem publicou essa porcaria! Anda logo, porque estou impaciente aqui.

Desligo antes que ela responda e arremesso o celular em cima da cama. Passo a mão pelos meus cabelos, irritada. Jogo-me na cama e pego o celular novamente. Tento pela décima vez ligar para o Ricardo, mas novamente ele não me atende. Afundo meu rosto no travesseiro e bato minhas pernas e mãos, dando birra que nem uma criança. O que eu fiz para merecer isso? O namorado, com quem achei que me casaria em breve, termina comigo por causa de uma maldita fofoca. Isso que chamo de falta de confiança. Após eu ter tentado me explicar, Ricardo respondeu que não interessava mais se era verdade ou mentira, que ele estava cansado da confusão da minha vida. Mal sabe ele que também estou cansada. Só queria um descanso para minha mente.

Viro-me e fico analisando o teto, pensando que só queria poder ir ao cinema, restaurante, namorar, sem que isso virasse notícia em todos os jornais. Choro de raiva quando ouço novamente alguém batendo na porta. Deve ser a incompetente da Ana. Levanto rapidamente e abro. Ela entra arrastando uma mala e segurando seu notebook nos braços. Ana mal entra pela porta e já a ataco, esquecendo-me do choro dramático de alguns minutos.

— Como você deixou isso se espalhar, Ana?

— Não foi minha culpa, Lara. Em questão de duas horas já apareceu em inúmeros jornais, mas já estou resolvendo isso.

Ela deixa sua mala no canto do quarto de hotel e coloca seu notebook em cima da mesa. Seus dedos ágeis percorrem a tecla e ela franze a testa enquanto lê alguma coisa. Aproximo-me para ver o motivo dessa expressão e já estou com medo do que irei ler em seguida.

— Oh merda — diz, passando a mão pela têmpora.

Meu coração acelera e grito novamente de ódio.

“Lara Vasconcelos confirma o tamanho do brinquedo do novo affair. Parece que tem alguém bem servida, não é?”

Mas que porra é essa? Imediatamente lembro-me da empregada do hotel e a amaldiçoo com nomes de A a Z. Um desespero toma conta de mim e sei que essa notícia jamais irá parar de se espalhar. A minha antiga vida sem graça, sem nenhum boato, sempre com o mesmo namorado, não vendia, mas essa mentira vende como água em dia de calor. Eles vão cair matando em cima de mim.

Pego novamente meu celular e abro a rede social de compartilhamento de fotos. Imediatamente explodem notificações de pessoas me marcando em notícias. Sacudo a cabeça, completamente desesperada com a proporção que isso está tomando. Começo a ler os comentários, a maioria apoiando o suposto namoro e desejando felicidades, outros comentários de hatters nos xingando. Alguém marca o tal Miguel e, curiosa, entro no seu perfil. A última foto é um printscreen de algumas dessas páginas com “nossa” foto. Meu coração está frenético quando começo a ler a legenda. Ele pede para respeitar a vida particular dele e o “nós” no restante da frase me chama atenção. “Nós não iremos dar mais declarações”. Nós? Que nós? A foto postada há menos de cinco minutos explode de comentários de fãs dele. A cada atualizada que dou com o dedo, mais centenas aparecem. Meu número de seguidores quase duplicou em menos de 24 horas. Continuo analisando as pessoas comentando na última postagem do cantorzinho, elas dizem a mesma coisa que eu. Nós? O filho de uma mãe está mesmo confirmando indiretamente que estamos juntos?

— Ana. Consiga o contato direto desse Miguel. Eu vou matá-lo.