Capítulo I - Boatos - por Natália Dias

Meu grito poderia ter sido ouvido no primeiro andar, caso as paredes do luxuoso hotel não tivessem isolamento acústico. Malditos pseudojornalistas e suas notícias falsas! Não é como se eu nunca tivesse passado por isso antes, afinal a carreira de cantora está sujeita diariamente a esse tipo de fofoca, mas me irrita o fato de isso sempre prejudicar minha carreira, meu emocional, e agora, o meu relacionamento.

Olho para o notebook, irritada e querendo tacá-lo na parede, ao ler pela milésima vez a manchete de um jornalzinho online qualquer “Cantora pop, Lara Vasconcelos, é a pivô da separação do cantor sertanejo Miguel Macedo”. Na matéria ridícula ainda aparece uma suposta foto minha com o tal cantor, que nem tenho ideia de quem seja. Analiso a imagem e realmente dá para dizer que sou eu. Se analisar rapidamente, é possível confundir os cachos caindo nos ombros e o rosto de perfil. A fotografia escura e tirada por um amador só faz com que piore tudo.

Atualizo o site e outros milhares aparecem, espalhando a maldita fofoca mentirosa. Fecho o notebook com força e o empurro pela mesa de madeira. Por que comigo, Deus? Ao invés de pedra, acho que joguei merda na cruz! Apoio a testa na mesa e bato lentamente várias vezes querendo apagar este pesadelo da cabeça. Ainda tenho que pensar em como recuperarei meu namorado e conseguirei meus contratos cancelados de volta. A inútil da minha assessora sumiu do mapa e não atende meus telefonemas. Gasto uma fortuna com salário para não ter ajuda quando preciso.

Ouço a batida na porta e levanto arrastada, sentindo-me triste e derrotada. Ando até lá e abro para receber o almoço que pedi, quando sou surpreendida com um flash no meu rosto.

— Mas que merda… — digo, tampando os olhos. Não sei como ainda não fiquei cega devido a essas pessoas completamente sem noção de privacidade.

— Desculpa, Lara! Sou sua fã! — A garota arrasta o carrinho com a comida até o interior do quarto e, ainda com o celular na mão, me olha com aquela expressão extasiada que todo fã sempre estampa.

— Tudo bem… — Tento sorrir, mas deve ter saído uma bela de uma careta ao invés disso.

— Parabéns pelo namoro! Não ligue para as pessoas que estão te chamando de vagabunda… Vocês estarem felizes é o que importa — ela diz animada, e tira uma revista escondida na cintura. — Você pode assinar a capa para mim?

Aceno sem nem me dar o trabalho de responder, ou desmentir, o que ela disse. Como assim estão me chamando de vagabunda? A garota se aproxima de mim e me entrega uma caneta. Faço uma expressão de choque ao notar que não é minha imagem estampada na capa da revista. Leio o que está escrito em letras gigantes e coro ao notar a foto do tal sertanejo na capa. Com apenas um violão tampando as partes íntimas e um chapéu segurado com uma mão, como se ele fosse tirá-lo, o homem mostra seu belo sorriso e corpo. A matéria com o título de “Parece que os 22 centímetros não eram apenas boatos” me chama atenção, e eu quase engasgo com a minha própria saliva.

Observo o tal Miguel e, por um segundo, admiro a sua beleza. Ele tem um jeito meio rústico, com a barba preenchendo todo o rosto, a pele morena de sol e um sorrisinho, que se fosse em outro momento, me faria ter pensamentos bem sacanas. Isso por que não falei sobre o corpo perfeito quase nu. Queria por um minuto ser aquele violão para… O que estou pensando? Ele destruiu minha vida com a bagunça da vida dele!

A garota ainda me olha atenta examinando minhas reações e diz:

— Você é mesmo uma mulher de sorte! Ele é maravilhoso… e uma delícia. Com todo respeito! — Ela levanta as mãos e faz um sinal de que está sendo respeitosa. Palhaçada. — Posso te perguntar uma coisa pessoal?

Concordo com a cabeça enquanto assino a tal revista um tanto capciosa.

— Ele tem mesmo 22 centímetros de… você sabe. — Primeiro, olho para ela chocada sem acreditar que está mesmo me perguntando isso.

Meu celular toca em cima da cama e me livro de ter que comentar isso. Faço o sinal para ela, que entende o recado. A moça agradece pelo autógrafo e sai do quarto, fechando a porta em seguida. Reviro os olhos e vejo o nome da minha assessora na tela, suspirando aliviada atendo.

— Onde diabos você se meteu, Ana? Sabe as merdas que estão rolando por aí? — grito.

— Eu sei, Lara! Desculpa. Estou chegando aí em alguns minutos! — Ana responde, parecendo tranquila demais para o meu gosto. — Não surta. Você sabe como são essas fofocas, surgem e vão com a mesma velocidade.

— Espero, viu. Ou vou matar quem publicou essa porcaria! Anda logo, porque estou impaciente aqui.

Desligo antes que ela responda e arremesso o celular em cima da cama. Passo a mão pelos meus cabelos, irritada. Jogo-me na cama e pego o celular novamente. Tento pela décima vez ligar para o Ricardo, mas novamente ele não me atende. Afundo meu rosto no travesseiro e bato minhas pernas e mãos, dando birra que nem uma criança. O que eu fiz para merecer isso? O namorado, com quem achei que me casaria em breve, termina comigo por causa de uma maldita fofoca. Isso que chamo de falta de confiança. Após eu ter tentado me explicar, Ricardo respondeu que não interessava mais se era verdade ou mentira, que ele estava cansado da confusão da minha vida. Mal sabe ele que também estou cansada. Só queria um descanso para minha mente.

Viro-me e fico analisando o teto, pensando que só queria poder ir ao cinema, restaurante, namorar, sem que isso virasse notícia em todos os jornais. Choro de raiva quando ouço novamente alguém batendo na porta. Deve ser a incompetente da Ana. Levanto rapidamente e abro. Ela entra arrastando uma mala e segurando seu notebook nos braços. Ana mal entra pela porta e já a ataco, esquecendo-me do choro dramático de alguns minutos.

— Como você deixou isso se espalhar, Ana?

— Não foi minha culpa, Lara. Em questão de duas horas já apareceu em inúmeros jornais, mas já estou resolvendo isso.

Ela deixa sua mala no canto do quarto de hotel e coloca seu notebook em cima da mesa. Seus dedos ágeis percorrem a tecla e ela franze a testa enquanto lê alguma coisa. Aproximo-me para ver o motivo dessa expressão e já estou com medo do que irei ler em seguida.

— Oh merda — diz, passando a mão pela têmpora.

Meu coração acelera e grito novamente de ódio.

“Lara Vasconcelos confirma o tamanho do brinquedo do novo affair. Parece que tem alguém bem servida, não é?”

Mas que porra é essa? Imediatamente lembro-me da empregada do hotel e a amaldiçoo com nomes de A a Z. Um desespero toma conta de mim e sei que essa notícia jamais irá parar de se espalhar. A minha antiga vida sem graça, sem nenhum boato, sempre com o mesmo namorado, não vendia, mas essa mentira vende como água em dia de calor. Eles vão cair matando em cima de mim.

Pego novamente meu celular e abro a rede social de compartilhamento de fotos. Imediatamente explodem notificações de pessoas me marcando em notícias. Sacudo a cabeça, completamente desesperada com a proporção que isso está tomando. Começo a ler os comentários, a maioria apoiando o suposto namoro e desejando felicidades, outros comentários de hatters nos xingando. Alguém marca o tal Miguel e, curiosa, entro no seu perfil. A última foto é um printscreen de algumas dessas páginas com “nossa” foto. Meu coração está frenético quando começo a ler a legenda. Ele pede para respeitar a vida particular dele e o “nós” no restante da frase me chama atenção. “Nós não iremos dar mais declarações”. Nós? Que nós? A foto postada há menos de cinco minutos explode de comentários de fãs dele. A cada atualizada que dou com o dedo, mais centenas aparecem. Meu número de seguidores quase duplicou em menos de 24 horas. Continuo analisando as pessoas comentando na última postagem do cantorzinho, elas dizem a mesma coisa que eu. Nós? O filho de uma mãe está mesmo confirmando indiretamente que estamos juntos?

— Ana. Consiga o contato direto desse Miguel. Eu vou matá-lo.

Capítulo II - Proposta - por Victória Gomes

Quanto tempo demora para cruzar esta bendita cidade? A minha sorte, ou eterno azar, é que o tal Miguel vai fazer um show em alguns dias e está por aqui, caso contrário eu teria que atravessar metade do país para esganá-lo com minhas próprias mãos. E estou começando a considerar fazer isso se ele demorar mais cinco minutos inteiros para cruzar essa porta.
Como se já não fosse o suficiente virar minha vida do avesso, ainda tem a cara de pau de me deixar esperando neste hotel que parece ter virado um campo de guerra, com todos esses paparazzi abutres na porta. Tentei colocar a cara para fora da janela e tudo que eu encontrei foi uma legião de fãs histéricos, e não consigo decidir se estão no grupo que parece ter imediatamente se tornado dos maiores apoiadores desse romance falso ou se estão me xingando de amante vagabunda.
O bonito disse que nós não daríamos mais declarações nenhuma, bom, adivinhe só?, nós estamos começando a perder a paciência e nós estamos a ponto de sair deste quarto e voar no pescoço desses jornalistas!
Puxo o celular do bolso e ligo para Ana.

— Onde está esse filho da mãe? E onde você se enfiou? — praticamente grito na linha. Para que eu pago tão bem essa mulher se ela me abandona no dia mais infernal da minha carreira inteira? Ouço do outro lado da linha quando ela diz que está tentando entrar em contato, mas nada.

Nada então? É assim que ele quer jogar?
Olho para o meu violão lindamente encostado na parede do canto do quarto e me pergunto se é uma boa ideia tentar compor alguma coisa agora. Tenho andado em um surto de inspiração ultimamente e parece que qualquer agulha que cai no chão perto de mim é motivo para escrever uma música nova, mas só consigo pensar no tipo de melodia que sairia com a raiva que está fervilhando dentro de mim. Facilmente uma letra tão violenta que seria vetada pelos meus patrocinadores, por fazer apologia à violência que eu quero cometer contra esse homem agora.
Quando estou a ponto de pegar o celular de novo, só que desta vez para ligar direto para o empresário de Miguel, ouço batidas firmes na porta e vozes agitadas vindas do corredor. Ando a passos largos e já preparada para os gritos descontrolados que quero dar, mas simplesmente congelo boquiaberta quando abro a porta.

— Acho melhor você sair daqui antes que a segurança chegue, rapaz — Um homem alto diz para um garoto.

Miguel. Reconheço a cara dele pelos vídeos que assisti de seus shows, enquanto tentava não surtar pela demora. O garoto do lado dele, um moleque que mal saiu das fraldas, está parado com um celular na mão e olhando nervoso para o moreno vestido com uma camisa quadriculada de botões, o maior dos clichês sertanejos, e uma calça jeans apertada demais.
É impossível que os 22 centímetros sejam verdade. É humanamente impossível acomodar isso tudo em tão pouco espaço. Se bem que… Pelo amor de Deus, Lara, o que você está fazendo?

— Eu e essa linda moça aqui temos que conversar para tentar resolver essa bagunça em que vocês nos meteram. — Ele passa a mão pelo cabelo. — Fiquei muito irritado, rapazote. Quem mete nas coisas aqui sou eu — diz, e pisca para o garoto que engasga em seco enquanto eu olho embasbacada para a falta de vergonha na cara desse cidadão.

Quando ele finalmente olha na minha direção, a secada que ele me dá, olhando-me de cima a baixo, como se estivesse analisando um puro-sangue à venda, só faz com que a minha irritação aumente e por isso, só por isso, eu tiro a jaqueta de couro que subitamente ficou quente demais.

— O que no inferno você acha que está fazendo falando com os jornalistas desse jeito, seu irresponsável? — grito, batendo a porta com força quando ele entra no quarto sem ter sido convidado. — Agora eles vão ter certeza que essa merda de fofoca é verdade!

Ele olha ao redor e meneia a cabeça como quem aprova o lugar. Eu mereço.

— Lara, não é? — pergunta, apontando para mim com o indicador, as sobrancelhas franzidas em uma confusão fingida. Reviro os olhos para o teatrinho. — Você jura que vão achar isso? Quer dizer que até agora eles estão aqui para apreciar suas belas pernas? — debocha, e sua voz é muito mais macia do que eu estava preparada. — Todo mundo já acha isso. A pergunta é o que você quer fazer a respeito. Aqui estou eu. O que quer de mim?

Quero dar um tapa nessa sua cara descarada! Como assim o que eu quero?
Eu batalhei com unhas e dentes, dediquei minha vida inteira construindo esta carreira, tive que fugir de mãos abusadas e propostas absurdamente ofensivas ao longo dos anos, confiando no meu talento e trabalho duro para chegar onde estou. Fiquei longe de escândalos, fofocas, minha vida pessoal sempre foi tão chata que ninguém nem se deu ao trabalho de tentar inventar historinhas a meu respeito. Meu relações públicas é pago basicamente para fazer cartaz de show, porque minha imagem é impecável. Era impecável. Com certeza não tive essa dor de cabeça toda para acabar sendo vista como a vagabunda que acabou com um casal que nem conhecia!

— Sua esposa não se importa de você estar aqui resolvendo essa bagunça com a sua amante? — cuspo, repetindo as palavras que ele disse para o jornalista, e a minha vontade é unhar a cara dele quando ele sorri em resposta.
— Minha esposa provavelmente está na cama com meu empresário a essa hora, afogando suas mágoas, duvido que se importe com o que eu estou fazendo, desde que continue assinando os cheques. Agora, pode não parecer, mas sou um homem muitíssimo ocupado, Lara — diz e quase me sinto mal por estar descontando nele o que claramente foi um golpe de marketing de um jornaleco qualquer desesperado por uma notícia escandalosa para vender. Mas o sentimento mal dura um segundo, que é o exato tempo que ele demora para abrir a boca de novo. — Esse tanquinho não se mantém sozinho e eu já pulei minha série de abdominais hoje. A não ser que você se importe de eu malhar aqui? Tenho certeza que você vai gostar muito da vista.

Empino o queixo para sua petulância, mesmo que uma parte pequena de mim tenha ficado um pouco balançada com a primeira parte da resposta. Não consigo não pensar na merda de casamento que meus pais tiveram, o quanto de traição e ressentimento estava envolvido, e prometi para mim mesma que nunca estaria na mesma situação. Adivinhe só onde estou presa bem agora? Quem quer que tenha inventado essa mentira, ou é a pessoa mais sortuda do mundo para atingir um nervo assim com tanta precisão ou sabia exatamente o que estava fazendo.

— Eu quero que você apague aquele post da sua página e solte uma nota dizendo que não tem “nós” coisa nenhuma! Você tem alguma ideia do inferno que minha vida virou?

Miguel me olha de cima a baixo com seus olhos castanhos demais e abre um largo sorriso que marca seu rosto e faz ele ficar mais bonito do que eu gostaria de admitir.

— Será que você pode fingir ser uma boa anfitriã e me servir um copo de água? — pergunta.

Paro e fico olhando para ele, estarrecida. Ele não pode estar falando sério. Não tem cabimento querer me fazer bancar a boa anfitriã quando estou a ponto de jogar uma cadeira na cara dele. Mas vou. Porque minha mãe me educou, diferente desse cara que parece ser filho de chocadeira para justificar esse comportamento ridículo.
Me curvo para abrir o mini freezer do quarto e ouço um assobio descarado vindo do outro lado do quarto. Preciso respirar fundo para não arremessar a garrafa de água nele daqui mesmo. Levanto e arrumo minha postura antes de virar na direção de Miguel, que me olha com um sorriso sacana no rosto.

— Podiam ter feito muito pior — diz.

Faço uma careta.

— O quê?
— A fofoca. Se é para eu trair minha esposa com alguém, quase não me importo que seja com você. Quer dizer, tenho certeza que você tem um bom espelho, Lara. — Ele inclina a cabeça, como se analisasse, do mesmo jeito que meu estilista faz. — O cabelo curto caiu bem em você, não tem muitas mulheres no nosso meio que usam assim. Te favoreceu. Vai bem com seus olhos castanhos. Mas também com um corpo desses você não precisaria de nenhuma superprodução para deixar qualquer macho arriado.

E é isso. É a gota d’água. Eu tive um dia de merda, meu telefone não parou de tocar com jornalistas carniceiros vindo atrás de fofoca fresquinha, Ana parece ser incapaz de controlar o tamanho do dano que está sendo causado na minha imagem, meus índices de popularidade caíram drasticamente hoje. É o cúmulo do ridículo que Miguel esteja mais famoso do que nunca e eu esteja sendo taxada de vagabunda destruidora de casais felizes. Pelo visto nem tão felizes pelo que ele acabou de dizer.
Não, nem morta que vou comprar essa história de pobre garoto rico, gostoso, malhado e talentoso. Ele que vá sofrer na casa do caralh…

— E então, bonequinha. Estou com sede — ele interrompe meu pensamento.

Ando na direção dele com meu sorriso mais simpático e sinto a raiva queimar dentro de mim. Abro a garrafinha de plástico e estendo o braço em sua direção. E Miguel sorri para mim, aquele sorriso convencido de garanhão predador rústico do interior, crente que caí nesse seu papo escroto.
E sua cara de surpresa é tão boa quando viro a garrafa na cabeça dele que quase vale a pena a dor de cabeça toda que eu tive no dia hoje só por esse momento.

— Você está louca, mulher?

Você ainda não viu nada.
A água molha sua camisa inteira e eu imediatamente me arrependo quando vejo o tecido ficar transparente, colado no seu peito malhado. Porcaria de camiseta branca.

— A mulher aqui tem nome, sobrenome, agenda lotada e uma reputação a zelar. Não tenho nem tempo nem paciência para essas suas gracinhas que por algum motivo parecem funcionar para você.

Espero que ele fique furioso e saia daqui soltando fogo pelas ventas, encontre algum jornalista no caminho e diga que é impossível existir qualquer coisa entre nós porque eu sou intragável demais para isso. Empino o queixo e dou um passo na sua direção, apontando o dedo na direção do seu rosto.

— Se você não se importa com o que a sua mulher faz ou deixa de fazer, o problema é seu. Se você quer ficar se escondendo atrás dessa sua pose de macho gostosão escroto porque é o que a mídia quer, o problema é mais seu ainda! Eu não vou admitir que você jogue a minha carreira no lixo só por que você não se importa com o talento que tem e prefere se afundar no seu próprio ego!

Miguel entorta a cabeça e, pela primeira vez desde que entrou aqui, para de sorrir. Ele cerra os olhos na minha direção.

— Sua assessora disse que você não tinha ideia de quem eu era.

Reviro os olhos.

— É claro que eu fui procurar saber de você, imbecil. Já estou cega o suficiente nessa situação de merda.
— E você acha que eu tenho talento?

Pelo amor de Deus.

— Você atravessou a cidade para pescar elogios? A sua legião de fãs enlouquecidas e suas quatrocentas amantes não afagam o seu ego o suficiente não?

Paciência? Nem sei o que é mais. É de comer? Se for de beber eu quero, estou precisando de uma boa dose para não enlouquecer.

— O que te faz pensar que eu tenho quatrocentas amantes?
— Talvez o fato de você não estar surtando com isso! Com certeza já está acostumado com esse tipo de fofoca! Eu não estou, nem quero estar, então conserte isso!

Sem falar do namorado que tenho para manter. Assim que ele atender o telefone. Deixei dezenas de mensagens para Ricardo desde que essa história explodiu e ele está me ignorando há horas.
Miguel me encara em um silêncio irritante por um longo minuto. E então, do nada, ele começa a tirar a blusa. O jeito que ele olha para mim enquanto desabotoa a blusa faz eu me sentir em um strip club.

— O que no inferno você está fazendo?
— Você me molhou. Tenho um show daqui a alguns dias, não posso ficar doente, Lara.

O jeito que ele fala meu nome é pecaminoso demais para o meu juízo que já não está mais presente no meu corpo a essa altura do dia. Miguel se joga na cama, sem camisa, cada um dos seus gominhos à mostra, os fios castanhos molhados na testa. Ele me olha de cima a baixo e sinto-me exposta, mas não de um jeito ruim.

— Acho que essa história pode ser boa no fim das contas, Lara.

Passo a mão pelo cabelo, já começando a entrar em desespero. Eu não perco o controle. Nunca, nem por um segundo que seja. Não admito não estar à frente de cada mínima coisa que acontece na minha vida e é isso o que mais me desestabiliza nessa situação: a completa falta de controle sobre o que falam de mim e como distorcem tudo que eu sou.

— Você vai ficar em pé? Porque esta conversa vai ser muito longa e não quero que você canse seus lindos pezinhos. Essas botas de salto alto não parecem muito confortáveis.

E não são mesmo, mas eu sou baixinha demais para me dar ao luxo de usar qualquer outra coisa. E isso não é problema dele!

— Não existe a menor chance de eu chegar perto de você — resmungo.
— Está com medo, Lara? Não vou te atacar.

Ouço batidas na porta e sem nem prestar atenção no que estou fazendo, vou na direção do som.

— Você consegue fazer danos o suficiente na minha vida sem precisar encostar um dedo em mim — digo um segundo antes de alcançar a maçaneta.

Abro a porta ainda prestando atenção no descarado deitado na minha cama e não vejo quando Ricardo cruza o batente até ficar parado no meio do quarto, olhando-me com puro ódio nos olhos.

— Que porra é essa, Lara? Você fica o dia inteiro me ligando, implorando para se explicar, e eu chego aqui para encontrar seu amante sem roupa na sua cama?

Ricardo dá um passo na minha direção, furioso.

— Você sabe a merda que minha vida virou por sua causa? Todos os meus amigos estão me chamando de corno por aí! Eu mal consegui trabalhar hoje. Têm jornalistas na minha porta, na casa dos meus pais, na porta da empresa. — Ele passa a mão no cabelo, exasperado. — Estou cansado disso!

E quem não está? É uma bela porcaria que seja impossível eu fazer o meu trabalho sem toda essa complicação embutida. Não pedi por isso mais do que ninguém! Nunca fui dada a esses escândalos. A maioria dos cantores vive para uma exibição pública, qualquer coisa para ficar na mídia. Eu prefiro conquistar o mundo com meu trabalho duro e dormir tranquila à noite.

— Ricardo — chamo a atenção dele para mim. — Pela última vez, eu não estou te traindo! — Tento não gritar e falho.
— Eu não acredito em você! — ele grita de volta. — Olha ao redor, Lara! Olha a merda que é a sua vida. Sem férias, sem descanso, sem privacidade. Sempre um doido atrás de você. — Ele olha para Miguel. — Sempre uma sacanagem rondando. É isso que você quer? É essa baixaria que você quer?

Dou um passo na direção de Ricardo, decepcionada, desapontada, irritada. Como é possível alguém ficar ao lado de outra pessoa por tanto tempo e no primeiro problema se comportar desse jeito? Quando eu dei motivo para ele desconfiar de mim? Ele não me conhece?

— Sai do meu quarto — digo e vejo no seu rosto o quanto ele se espanta. — Vai embora.

Eu tenho muita coisa para me preocupar. Amo Ricardo, não estaria com ele se não amasse. Mas é da minha carreira que estamos falando e não é a primeira vez que ele insinua que estaria mais feliz se eu largasse tudo por ele. E eu jamais ficaria feliz com alguém que me pede para escolher entre meu sonho e um relacionamento.

— Assim? Vai me trocar por esse palhaço com cara de ator pornô? — Não respondo. — Francamente, Lara.
— Não precisa se preocupar não — Miguel diz. — Eu garanto que ela vai estar muito mais bem servida depois que você for embora. Alguns boatos são verdade. — Ele leva a mão à barra da calça, claramente atraindo o olhar do meu querido namorado — ex-namorado — para o centro catalizador dessa confusão toda e vejo o rosto de Ricardo ficar vermelho de raiva.

Me pergunto se ele vai partir para cima de Miguel, mas ele é sensato o suficiente para saber que levaria uma surra. E, sinceramente, neste ponto da história nem sei mais quem eu quero ver com o olho roxo. Os dois. Ricardo sai do quarto, esbarrando no meu ombro no caminho e bate a porta, e eu viro de costas, respirando fundo para não chorar. Nem morta que eu vou fraquejar na frente de Miguel e toda sua arrogância. Sinto a mão dele no meu ombro.

— Por que diabos você falaria uma coisa dessas? — grito. — Parece que você quer piorar as coisas, mas que inferno Miguel!
Viro em sua direção e dou um passo para trás. Peito nu malhado perto demais para o meu gosto.
— Era isso ou dar uma porrada na cara daquele babaca — diz, dando os ombros, como se não fosse nada demais.
Quero gritar. Sério. Um grito daqueles bem altos e descontrolados.
— Só você pode ser babaca então?

Atravesso o quarto para pegar uma garrafa de água para mim dessa vez.

— Já olhou para mim? Eu sou gostoso, posso ser o que eu quiser.
Ah, pelo amor de Deus.
— Miguel — digo, respirando fundo. — Vamos acabar logo com isso, eu quero minha vida de volta e você bem longe daqui.
— Como preferir, Lara. Vamos falar de negócios? Acho que tenho uma proposta muito boa para você.